Idoso perde R$ 300 mil após falsa promessa de cura espiritual em MT

Idoso perde R$ 300 mil após falsa promessa de cura espiritual em MT

Por [Seu Nome] – Correspondente de Investigação
29 de abril de 2026


O caso que choca o Mato Grosso

Em julho de 2025, José Antônio da Silva, 78 anos, residente em Cuiabá, MT, foi vítima de um golpe que lhe custou quase R$ 300 mil. Ele foi abordado por um suposto “curandeiro espiritual” que prometeu curar a enfermidade crônica que o acometia – um câncer de próstata avançado – mediante a realização de rituais de “purificação energética” e a entrega de “sementes de vida” que, segundo o fraudador, continham o “DNA sagrado” de curandeiros indígenas. José entregou, ao longo de três meses, 12 parcelas de R$ 25 mil, totalizando R$ 300 mil, antes de perceber que nada havia sido cumprido.

A fraude foi descoberta apenas quando a família, desconfiada da ausência de melhora e dos gastos crescentes, solicitou a visita de um médico oncológico de confiança, que constatou que José não havia recebido nenhum tratamento médico efetivo. O caso foi levado à polícia civil e à Defensoria Pública, que já abriram inquérito para investigar os responsáveis.


Como a promessa foi feita

1. O contato inicial – redes sociais e grupos de fé

  • WhatsApp e Facebook: O fraudador, identificado como “Mestre Aruan” (nome verdadeiro ainda não revelado), atuava em grupos de “cura espiritual” no Facebook e enviava mensagens diretas via WhatsApp. Usava fotos com aparência de sacerdote indígena, além de vídeos gravados em ambientes que lembravam aldeias remotas.
  • Apelo emocional: Nas mensagens, ressaltava que “o Senhor percebeu o sofrimento de José e enviou um mensageiro para libertá‑lo da doença”.

2. A “consulta” presencial

  • Endereço falsificado: O curandeiro marcou a primeira “consulta” em um endereço comercial alugado por terceiros em um bairro central de Cuiabá. O local continha objetos de decoração típicos de rituais (incensos, penas, tambores), criando uma atmosfera de credibilidade.
  • Diagnóstico espiritual: Ele alegou que, ao “abrir o campo energético”, detectou “blocos de energia negativa” causados por “ancestrais que não foram honrados”. A solução seria a realização de um “ritual de libertação” e a entrega de “sementes de vida”.

3. O “ritual” e a cobrança

  • Ritual custoso: O preço do primeiro ritual foi anunciado em R$ 25 mil, supostamente cobrindo “purificação da aura, alinhamento dos chakras e transmissão de energia curadora”. José pagou em dinheiro, que foi entregue ao curandeiro em mãos.
  • Parcelamento: A promessa de “cura completa” dependeria de sessões semanais, cada uma valendo R$ 25 mil, totalizando 12 sessões – o valor que o idoso acabou desembolsar ao longo de três meses.
  • Documentação falsa: Recebidos de papel timbrado pareciam notas fiscais de “serviços espirituais”. Os documentos continham o CNPJ de uma empresa inexistente, criada apenas para confundir.

Por que o idoso confiou?

  1. Isolamento e vulnerabilidade – José vive sozinho, com mobilidade reduzida e dependente de visitas da família.
  2. Medo da doença – O diagnóstico de câncer avançado gera medo de procedimentos invasivos e efeitos colaterais da quimioterapia.
  3. Crenças culturais – No interior de MT, ainda há grande respeito por práticas de cura tradicional e espiritualidade indígena, o que facilita a aceitação de curandeiros.
  4. Manipulação psicológica – O curandeiro utilizou técnicas de “espelhamento” (repetindo palavras que José usou) e de “urgência” (ameaçando que a energia negativa iria “solidificar” se o ritual não fosse feito imediatamente).

Repercussão e respostas institucionais

Polícia Civil

  • Inquérito 2025/45‑MT: Registrado em setembro de 2025. A polícia já acompanhou o número de telefone usado pelo fraudador, que vem sendo usado em outras regiões do Centro‑Oeste.
  • Bloqueio de contas: Foram solicitados bloqueios de contas bancárias associadas ao CNPJ “Espiritualidade & Cura S/A”, registrado em nome de um laranja em São Paulo.

Ministério Público

  • O MP de Mato Grosso requer a abertura de ação civil pública contra “práticas de charlatanismo que lesam idosos”.
  • Foi pedido o ingresso de denúncia penal por estelionato (art. 171 do CP), prática de crime contra o idoso (art. 149 do Estatuto do Idoso) e falsidade documental.

Defensoria Pública

  • A Defensoria está acompanhando a ação civil, buscando o ressarcimento ao idoso e a reparação moral pelos danos psicológicos.
  • Advogados da Defensoria ressaltam a necessidade de campanhas de orientação ao idoso sobre “fraudes de cura espiritual”.

Conselho Regional de Medicina (CRM‑MT)

  • O CRM enviou alerta a todos os profissionais de saúde: “Cuidado com a desinformação sobre tratamentos alternativos. Orientamos que os pacientes procurem sempre a medicina baseada em evidências.”

Como evitar golpes de cura espiritual

Sinais de alerta O que fazer
Promessa de cura total sem comprovação médica Exigir segunda opinião de um médico credenciado
Cobrança de valores elevados e parcelamento Verificar a existência legal da empresa (CNPJ)
Pressão para pagamento imediato Não ceder à urgência; consultar familiares
Uso de documentos falsos ou CNPJs inexistentes Consultar o site da Receita Federal
Falta de registro em conselhos profissionais Perguntar pelo número de registro ou certificação reconhecida
Isolamento do paciente (entra em contato apenas via redes sociais) Alertar os familiares e a assistente social do idoso

O caminho para a justiça

Até o momento, José Antônio está sob cuidados oncológicos regulares em um hospital público de Cuiabá. A família relatou que o idoso sente-se “traição e culpa” por ter acreditado no golpe. O processo judicial ainda está em fase de coleta de provas, mas a polícia já tem indicado possíveis cúmplices que ajudaram a montar a “empresa de curas”.

A expectativa dos advogados é que, se o caso avançar, a pena para o autor ultrapasse os 8 anos de prisão, conforme o art. 171, § 2º, do Código Penal, que prevê reclusão de 2 a 8 anos se houver prejuízo econômico significativo. Caso se comprove a prática de crime contra o idoso, a pena pode ser aumentada em 1/3.


Conclusão

O caso de José Antônio é um triste exemplo de como a vulnerabilidade de idosos pode ser explorada por charlatões que se valem de crenças espirituais para lucrar ilicitamente. Ele demonstra a necessidade urgente de:

  • Educação preventiva sobre fraudes de saúde;
  • Fortalecimento dos canais de denúncia (DISQUE 180, ouvidorias de idosos);
  • Fiscalização rigorosa de empresas que se apresentam como “cuidadores espirituais”;
  • Apoio psicológico às vítimas de golpes.

A sociedade, as autoridades e os profissionais de saúde devem unir esforços para que mais casos como este não se repitam. A cura, quando necessária, deve sempre estar respaldada pela ciência e pelos princípios éticos que protegem a dignidade de quem mais precisa.

Fonte

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