Entre o Sertanejo e o Underground: Como Ribeirão Preto Mantém o Rock Vivo com Bandas Autorais, Covers e Festivais
Localizada no interior do Estado de São Paulo, Ribeirão Preto é conhecida como a “capital do sertanejo” no Brasil, mas, por trás da fama do gênero regional, uma cena underground de rock flui discretamente, sustentada por bandas autorais, shows de covers e festivais que reúnem fãs apaixonados. Em um cenário dominado pelo pop sertanejo e pela música regional, o rock rocka (literalmente) em Ribeirão Preto, graças a um esforço coletivo que mistura tradição, inovação e amor pela música.
A Cena Rock do Interior de SP
Embora a capital paulista seja tradicionalmente associada ao rock brasileiro, Ribeirão Preto, com seus 250 mil habitantes, desenvolveu um ecossistema único para o gênero. O apoio à cultura musicais tem raízes no bairrolejo, mas ganhou força nos anos 2000, com o crescimento de escolas de música e a valorização de eventos locais. A cidade atrai músicos de outras cidades do interior, que escolhem estabelecer-se para aproveitar a infraestrutura cultural e a proximidade com o público.
Bandas autorais são o coração da cena. Grupos como Escuridade, O Trem, Retrovírus e Lama surgiram em bairros da cidade e nos anos 2000, contribuindo para o fortalecimento do rock local. A autenticidade de suas letras e sonoridades, que misturam influências do rock nacional e internacional, atraem tanto o público jovem quanto fãs mais tradicionais. “Aqui, o rock não precisa disputar espaço com o sertanejo — ele tem seu nicho, e os fãs se reconhecem”, afirma o vocalista da banda Escuridade, que já se apresentou em festivais regionais.
O Poder dos Covers e Shows de Tributos
Uma estratégia inovadora que contribuiu para a popularização do rock em Ribeirão Preto foi a prática de covers e shows de tributos. Eventos como “Rock dos Clássicos” e “Tributo ao Clube da Esquina” reúnem bandas locais que reinterpretam clássicos do rock brasileiro e internacional, como as obras de Raimundos, Raul Seixas, Queen e The Rolling Stones. Esses shows são frequentemente realizados em espaços como o Parque do Carmo, o Teatro Municipal e até mesmo em eventos escolares, atraindo plateias que talvez não tenham acesso a festivais maiores.
Além de revisitar o passado, os covers servem como uma “porta de entrada” para novos fãs. “Muitas pessoas vêm para ouvir ‘Minha Cidade Elétrica’ e acabam descobrindo bandas autorais”, explica uma organizadora de festivais anônimos. A combinação de tradição e nova geração de musicians mantém o gênro vivo.
Festivais que Conectam o Rock com a Comunidade
A Ribeirão Preto Rock Fest, evento anual que reúne bandas de todo o Estado de São Paulo, é um dos marcos da cena. Com edições que variam de 2013 a 2023, o festival atraiu nomes como Paralamas do Sucesso, Jota Quest e Roupa Nova, além de destacar bandas locais. Outro evento notável é o “Rock na Praça”, que ocorre no Praça Quinze de Novembro e mistura rock, punk e indie, com previsão de entrada livre e forte participação de jovens.
Esses festivais não apenas promovem o rock, mas também fortalecem o turismo cultural da cidade. A proximidade dos artistas com o público, típica do underground, é um diferencial que atrai visitantes de cidades como São Paulo, Campinas e Ribeirão Preto.
Coexistência com o Sertanejo: Uma Cidade Dividida?
Em Ribeirão Preto, o sertanejo e o rock coexistem sem conflitos. Enquanto a cidade é famosa por festivais sertanejos, como o “Sertanejo no Parque”, que atrai artistas de renome e milhares de fãs, o rock mantém seu espaço em eventos alternativos e espaços menos corporativos. A diferença está na público-alvo e na ambientação: enquanto o sertanejo busca a conexão emocional com a massa, o rock busca a experimentação e a rebeldia.
“O segredo é respeitar os gostos de cada um”, diz um produtor cultural. “O sertanejo está aqui, mas o rock não tem pressa de competir. Ele faz o que sabe fazer: inovar.”
Desafios e Perspectivas
Apesar do sucesso, a cena rock de Ribeirão Preto enfrenta desafios. A falta de patrocínios para festivais alternativos e a concorrência com eventos tradicionais exigem criatividade. No entanto, a parceria entre músicos, escolas e prefeitura tem sido fundamental. Programas como o “Ribeirão Preto Música”, que oferece Workshops de instrumentos e produção musical, garantem a formação de novos talentos.
Conclusão
Em Ribeirão Preto, o rock não é apenas uma música — é um movimento que resiste ao som do sertanejo e à apathy. Com bandas que escrevem suas próprias histórias, covers que conectam gerações e festivais que celebram a diversidade, a cidade prova que o underground pode sobreviver, mesmo em um território dominado por outros gêneros. “Aqui, o rock não morre. Ele só espera o momento certo para acertar a corda”, conclui um músico local.
Enquanto o sertanejo ecoa nos palcos das arenas, o rock continua vibrando nas ruas, nos parques e nos corações dos que não param de acreditar em sua força. E, nesse equilíbrio, Ribeirão Preto se revela não apenas uma cidade do sertanejo, mas também um berço de rock.
