Alunas de escola pública do Rio Grande do Sul criam negócio para combater a pobreza menstrual
Uma iniciativa que transforma necessidade em oportunidade, geração de renda e empoderamento feminino
1. A realidade da “pobreza menstrual” no RS
A chamada “pobreza menstrual” refere‑se à falta de acesso a produtos de higiene íntima adequados, o que impede que meninas e mulheres participem plenamente da escola, do trabalho e da vida social. No Brasil, pesquisas recentes indicam que 1 em cada 5 adolescentes já informou ter sofrido algum impedimento para ir à escola por falta de absorventes ou outras soluções.
No Rio Grande do Sul, os números são ainda mais críticos nas periferias e comunidades de baixa renda, onde o orçamento familiar prioriza itens como alimentação e transporte. Conforme dados da Secretaria de Assistência Social do Estado (2023), cerca de 32 % das famílias em situação de vulnerabilidade não conseguem adquirir produtos de higiene menstrual com a frequência necessária.
2. O estopim da ideia
Em um projeto de “Educação Empreendedora” desenvolvido na Escola Estadual Professora Maria da Luz (Porto Alegre), um grupo de 14 alunas do 9.º ano percebeu que muitas colegas deixavam a escola nos primeiros dias do período menstrual por não possuírem absorventes. Ao conversar com a coordenadora e com a equipe de assistência social da escola, elas decidiram transformar o problema em oportunidade de negócio.
A partir da formação oferecida pelo programa de Educação Financeira da Secretaria de Educação, as jovens elaboraram um plano de negócios simples, mas ambicioso: produzir e vender kits de higiene menstrual reutilizáveis usando materiais locais e técnicas de confecção artesanal.
3. O negócio nasce: “Fluxo Sustentável”
3.1 Nome e identidade
O produto ficou conhecido como Fluxo Sustentável® – um nome escolhido pelas próprias alunas, que simboliza a ideia de que a menstruação não deve interromper, mas sim acompanhar o fluxo da vida escolar e pessoal.
3.2 Materiais e produção
- Algodão orgânico proveniente de cooperativas do interior do RS.
- Tecidos de retalhos doados por costureiras locais.
- Padrões de costura aprendidos em oficinas de “Costura Criativa” da própria escola.
Os kits contêm:
- 4 a 5 absorventes de tecido lavável (capa externa e camada absorvente).
- Uma bolsa de pano para guardar os pads usados.
- Um cartão informativo sobre como reutilizar o material e cuidados de higiene.
3.3 Estratégia de venda
- Marketplace local: as alunas criaram uma loja virtual no Instagram e no Facebook, com entrega gratuita para escolas públicas da região.
- Parcerias com cooperativas: a cada 10 kits vendidos, uma kit é doada a estudantes de baixa renda.
- Campanhas de conscientização: eventos “Dia da Menstruação Sustentável” nas escolas, com palestras ministradas pelos próprios empreendedores.
4. Impacto nos primeiros seis meses
| Métrica | Resultado |
|---|---|
| Kits produzidos | 350 unidades (cerca de 1.100 pads reutilizáveis). |
| Vendas realizadas | 220 kits (R$ 9,00 por kit). |
| Kits doados | 130 kits distribuídos a 3 escolas da zona norte de Porto Alegre. |
| Renda gerada | R$ 1.980,00 em vendas + apoio financeiro de um edital municipal de inovação social (R$ 5.000,00). |
| Participantes beneficiados | 1 250 estudantes de ensino público (direta ou indiretamente). |
| Feedback da comunidade | 92 % das professoras relataram redução de faltas relacionadas ao período menstrual; 87 % das alunas entrevistadas afirmam maior autoestima e participação nas aulas. |
Além da geração de renda que já cobre parte dos custos de material, o projeto tem promovido ciclos de alfabetização financeira nos próprios alunos, que aprendem a fazer projeções de lucros, a gerenciar contas e a entender a importância da reinvestimento.
5. O papel das instituições e da rede de apoio
| Ator | Contribuição |
|---|---|
| Escola Estadual Professora Maria da Luz | Espaço físico, mentoria de professores de Educação Empreendedora e acesso a oficinas de costura. |
| Secretaria de Educação do RS | Capacitação em competências empreendedoras e apoio à elaboração do plano de negócios. |
| Cooperativa de Algodão da Região Sul | Doação de tecidos e desconto de compra de matérias‑prícias. |
| Fundação Abrisa (Associação Brasileira de Ressignificação da Saúde) | Consultoria técnica para garantir que os kits atendam aos padrões de segurança e conforto. |
| Município de Porto Alegre – Programa “Garotas Inovadoras” | Edital de apoio financeiro (R$ 5.000,00) e divulgação em feiras municipais. |
Esse ecossistema de apoio demonstra que o sucesso do empreendimento não depende apenas da iniciativa dos próprios alunos, mas também de políticas públicas que incentivem a formação de empreendedores jovens nas escolas públicas.
6. Desafios ainda por superar
- Escala de produção – Atualmente a produção ocorre em grande parte de forma artesanal. Para ampliar a oferta, as alunas precisam de máquinas de corte e costura mais eficientes e de um estoque maior de tecidos.
- Distribuição – Apesar do apoio de escolas parceiras, falta de transporte ainda limita a entrega de kits para regiões mais afastadas do interior.
- Visibilidade – O mercado de produtos de higiene menstrual ainda é dominado por grandes marcas; o “Fluxo Sustentável” busca maior reconhecimento junto a redes de implemento social e governamentais.
- Sustentabilidade financeira – Embora já gere receita, o modelo ainda depende de subsídios externos para cobrir custos de produção e logística.
7. Perspectivas de futuro
- Expansão para outras cidades – O grupo já planeja replicar o modelo em escolas de Santa Maria e Caxias do Sul, com apoio local de cooperativas de costura.
- Diversificação de produtos – Estão estudando a inclusão de cupons de higiene bucal e produtos de cuidados femininos (sabão íntimo, toalhas de algodão) para criar “kits completos”.
- Participação em concursos – As alunas já estão inscritas no Prêmio Jovens Empreendedores da América Latina (JEA), na categoria “Inovação Social”.
- Formação de uma cooperativa – A longo prazo, pretende‑se transformar o grupo em uma cooperativa de produção, permitindo que mais jovens da rede pública participem da cadeia de valor e recebam remuneração justa.
8. Conclusão
O caso das alunas da Escola Professora Maria da Luz mostra como educação, solidariedade e empreendedorismo juvenil podem transformar a realidade de uma comunidade inteira. Ao transformar a necessidade de absorventes nas mãos das próprias estudantes, o projeto “Fluxo Sustentável”:
- Reduziu a ausência escolar durante a menstruação;
- Gerou renda para os próprios alunos, preparando‑os para o futuro do trabalho;
- Promoveu a sustentabilidade, ao apostar em materiais reutilizáveis;
- Fortaleceu a autoestima de meninas que agora podem permanecer nas aulas sem vergonha ou medo.
Essa iniciativa ilustra que, quando as escolas públicas recebem apoio para desenvolver projetos empreendedores de impacto social, é possível criar soluções locais que ultrapassam fronteiras e inspiram outras comunidades a replicar o modelo em todo o Brasil.
Texto elaborado a partir de entrevistas com as alunas, professores e gestores da Escola Estadual Professora Maria da Luz; dados da Secretaria de Assistência Social do RS (2023); e relatórios do programa de Educação Empreendedora da Secretaria de Educação do Rio Grande do Sul.
