Paranense coleciona mais de 4 mil materiais das eleições dos últimos 100 anos: ‘Tem peças raras e itens proibidos’
Em um apartamento no centro de Curitiba, entre estantes organizadas e exposições cuidadosamente iluminadas, mais de 4 mil peças contam a história da democracia brasileira. O colecionador paranaense — que prefere não ter o nome revelado para proteger a privacidade da família — reuniu ao longo de três décadas material de campanha, cédulas, urnas, santinhos, propaganda eleitoral e documentos que remontam às primeiras décadas do século XX.
“A coleção começou como um hobby, mas virou obsessão documental”, conta o colecionador, que prefere ser identificado apenas como “o paranaense”. “Cada item tem uma história. Não é só lixo eleitoral; é memória.”
Entre as peças mais raras estão cédulas de papel utilizadas nas eleições antes da urna eletrônica, fotografias originais de comícios dos anos 1930 e 1940, material de campanha de candidatos que nunca foram eleitos — e que, muitas vezes, foram jogados no lixo pelos próprios colaboradores. Há também santinhos de épocas em que a propaganda impressa era artesanal e as colagens de fotos eram feitas à mão.
A questão dos ‘itens proibidos’
A expressão “itens proibidos” chamou a atenção, mas o colecionador explica que a maioria das peças é legal e de natureza histórica. No entanto, o acervo inclui documentos antigos de registro eleitoral que, pelas leis vigentes na época, hoje seriam considerados sigilosos ou até irregulares se expostos publicamente sem contexto.
“Temos aqui alguns documentos de fichas de eleitor do tempo do voto secreto obrigatório, antes da identificação biométrica”, explica. “São itens que, pela legislação atual, não podem mais ser reproduzidos ou comercializados, mas que estão guardados para pesquisa histórica.”
Ele ressalta que não possui materiais fraudulentos ou que possam ser usados para falsificação. “Se eu tivesse algo que pudesse comprometer a integridade do processo eleitoral, eu destruiria ou entregaria à Justiça”, afirma.
A urna de madeira e outros objetos
Um dos itens mais singulares é uma urna de madeira dos anos 1950, utilizada em uma pequena comunidade rural no interior do Paraná. Peças como essa são raras porque, após a electronicização do voto, muitos objetos foram descartados ou destruídos.
A coleção também abrange materiais das ditaduras militares, quando a propaganda era controlada pelo governo, e da redemocratização, com folders e adesivos das campanhas das Diretas Já.
Preservação versus ilegalidade
Especialistas em direito eleitoral alertam que, embora colecionar material histórico seja permitido, a posse de cédulas falsas, documentos de identidade eleitoral adulterados ou materiais de campanha irregular pode configurar crime. Por isso, colecionadores sérios costumam manter registros detalhados e, muitas vezes, doam peças a arquivos públicos e museus.
O paranaense diz que seu maior desejo é que o acervo um dia seja doado a uma universidade ou instituição pública. “A democracia precisa ser lembrada, também pelos seus erros e esquecimentos”, conclui.
Nota: O nome do colecionador foi omitido a pedido do entrevistado. A reportagem busca esclarecer que a posse de documentos eleitorais falsificados ou utilizados para fraude é crime previsto na legislação brasileira, independentemente do valor histórico atribuído à peça.
