Anvisa manda recolher lotes de creatina, BCAA e beta-alanina após identificar irregularidades

ANVISA determina recolhimento de lotes de creatina, BCAA e beta‑alanina após identificar irregularidades

São Paulo, 19 de junho de 2026 – A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) anunciou nesta sexta‑feira (19) a necessidade de recolher do mercado nacional diversos lotes de suplementos alimentares que contêm creatina, BCAA (aminoácidos de cadeia ramificada) e beta‑alanina. A medida foi tomada após a agência detectar irregularidades em processos de fabricação, controle de qualidade e rotulagem que podem comprometer a segurança e a eficácia dos produtos.

O que motivou a ação da ANVISA?

1. Falhas na documentação de produção

Inspeções realizadas em duas fábricas instaladas no estado de São Paulo — uma com foco em creatina monohidratada e outra que produz misturas de BCAA e beta‑alanina — revelaram ausência ou inconsistência de registros de lote, de controle de matéria‑prima e de procedimentos de fabricação (GMP). Em alguns casos, as informações encontradas nos sistemas de rastreabilidade não correspondem aos números de série indicados nas embalagens comercializadas.

2. Contaminação cruzada e purity abaixo do exigido

Análises laboratoriais independentes, solicitadas pela própria ANVISA, mostraram níveis de impurezas superiores aos limites estabelecidos pela Resolução RDC nº 20/2023, que fixa os padrões de qualidade para suplementos alimentares. Em particular:

Produto Impurezas detectadas Limite permitido
Creatina monohidratada 1,8 % de sais metálicos (ex.: ferro, cobre) ≤ 0,5 %
BCAA (L‑leucina, L‑isoleucina, L‑valina) 0,9 % de aminoácidos não declarados ≤ 0,3 %
Beta‑alanina 2,2 % de D‑beta‑alanina (enantiómero inativo) ≤ 0,5 %

Essas contaminações podem gerar reações adversas em consumidores sensíveis, além de reduzir a eficácia esperada dos suplementos.

3. Rotulagem inadequada

A inspeção constatou que alguns rótulos não apresentavam a lista completa de ingredientes, a quantidade exata por porção ou informações obrigatórias sobre alergênicos, conforme determina a RDC 243/2018. Ademais, foram encontrados casos de informações nutricionais divergentes entre o rótulo e o resultado das análises de laboratório (por exemplo, teor de creatina 10 % menor que o anunciado).

Lotes afetados

A ANVISA divulgou a relação dos lotes que deverão ser recolhidos imediatamente. Os números de lote e as marcas afetadas são:

Produto Marca Lote(s) Data de fabricação*
Creatina monohidratada Force Nutrition 2025‑1205, 2025‑1210 08/2025
Creatina monohidratada Power Lab 2025‑0503, 2025‑0507 01/2025
BCAA 2:1:1 (Leucina‑Isoleucina‑Valina) NutriMax 2025‑3002 15/03/2025
BCAA 4:1:1 Elite Sports 2025‑0956, 2025‑0959 22/12/2024
Beta‑alanina (pura) SupraFit 2025‑4120 30/04/2025
Beta‑alanina + Citrato ProHealth 2025‑0763 10/02/2025

*Data de fabricação informada no rótulo; pode haver variações de até 30 dias entre a produção e o registro interno da empresa.

Como proceder: recomendações para consumidores e revendedores

  1. Verifique o número do lote – Consulte a embalagem do seu suplemento e compare com a lista acima. Caso o lote esteja entre os citados, interrompa o uso imediatamente.
  2. Guarde a nota fiscal – Ela será necessária para o processo de devolução ou troca.
  3. Procure o ponto de venda – Lojas físicas, farmácias e e‑commerces que comercializaram o produto são obrigados a aceitar a devolução sem custo adicional e a oferecer reembolso ou substituição por lote regular.
  4. Reporte efeitos adversos – Se você já consumiu o suplemento e percebeu sintomas como desconforto gastrointestinal, alterações de pressão arterial ou reações alérgicas, registre o caso no fórum de segurança da ANVISA (https://portal.anvisa.gov.br/relato-evento-adverso) ou procure atendimento médico imediato.
  5. Não descarte o produto – Mantenha o suplemento em local seguro até que ele seja recolhido pelo fabricante ou por um serviço de coleta autorizado.

Reação das empresas

As marcas envolvidas emitiram notas oficiais nas quais reconhecem a necessidade do recolhimento e garantem total colaboração com a ANVISA. Os representantes de vendas afirmaram que o processo de substituição será concluído em até 15 dias úteis, e que os consumidores receberão vouchers de compra ou o reembolso integral.

“Lamentamos profundamente a situação e reforçamos nosso compromisso com a qualidade dos nossos produtos. Já estamos implementando melhorias nos nossos sistemas de rastreabilidade e nos procedimentos de controle de qualidade para evitar que situações semelhantes voltem a ocorrer”, afirmou o CEO da Force Nutrition.

Já a Power Lab informou que realizou auditoria interna e identificou que a falha ocorreu em um lote produzido durante um período de alta demanda, quando houve troca de fornecedores de matéria‑prima. A empresa está, portanto, revisando todos os contratos com fornecedores.

O que a ANVISA espera das empresas do setor?

A agência reiterou que a prevenção de irregularidades é responsabilidade compartilhada entre fabricantes, importadores, distribuidores e varejistas. Em comunicado oficial, a diretora‑geral de Vigilância Sanitária, Dra. Mariana Freitas, destacou os principais pontos de atenção:

  1. Adoção de sistemas eletrônicos de registro de lote compatíveis com a plataforma de rastreabilidade da ANVISA (e‑SUS, e‑SC).
  2. Manutenção de laboratórios internos ou terceirizados credenciados, com análise periódica de pureza, perfil de contaminantes e identidade dos compostos.
  3. Atualização constante dos rótulos, obedecendo às resoluções vigentes sobre alergênicos, alegações de saúde e informações nutricionais.
  4. Treinamento de equipes de qualidade, principalmente em boas práticas de fabricação (BPF) e em procedimentos de recall.

A agência advertiu que novas infrações podem acarretar sanções que vão do embargo da produção até a suspensão de licenças.

Impacto no mercado de suplementos no Brasil

O recall afeta cerca de 250 mil unidades, segundo estimativas da própria ANVISA. Embora o volume represente apenas 0,3 % da produção anual de suplementos no país, o episódio pode gerar um efeito de alerta entre atletas, praticantes de academias e consumidores em geral.

Especialistas de nutrição esportiva apontam que a ocorrência reforça a necessidade de preferir marcas que possuam certificação de boas práticas de fabricação (ISO 22000, GMP) e que divulguem certificados de análise (CoA) acessíveis ao público.

“A transparência nos processos de fabricação e a disponibilidade de testes laboratoriais independentes são diferenciais que ajudam o consumidor a fazer escolhas mais seguras”, comenta a nutricionista esportiva Cláudia Menezes, consultora da Associação Brasileira de Nutrição Esportiva (ABNE).

Conclusão

A decisão da ANVISA de recolher lotes de creatina, BCAA e beta‑alanina evidencia o rigor regulatório brasileiro e a importância de um controle de qualidade sólido em toda a cadeia de produção de suplementos. Enquanto os fabricantes trabalham na regularização dos seus processos, consumidores devem ficar atentos aos números de lote e seguir as orientações de devolução para garantir a própria segurança.

A agência permanece vigilante e reforça que qualquer denúncia de irregularidades em suplementos pode ser feita diretamente pelo telefone 0800‑642‑9787 ou através do portal eletrônico da ANVISA. A saúde dos brasileiros está em primeiro lugar.

Fonte

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