Cegos transformam garrafas pet que iriam para o lixo em vassouras usadas por garis na limpeza urbana em Vitória

Cegos de Vitória transformam garrafas PET em vassouras ecológicas para garis

Por Mariana Costa, especial para o Espírito Santo Jornal

Vitória ganhou mais um motivo de orgulho para seus moradores: uma cooperativa de catadores de materiais recicláveis formada, em sua maioria, por pessoas com deficiência visual, está produzindo vassouras sustentáveis a partir de garrafas PET descartadas, que agora serão usadas por garis da Secretaria Municipal de Limpeza Urbana.

A iniciativa, batizada de “Vassouras Solidárias”, nasceu da necessidade de encontrar um destino útil para os milhares de garrafas de plástico que entulham os piscinões da cidade e das áreas rurais, e ao mesmo tempo gerar renda para uma parcela da população que enfrenta barreiras adicionais no mercado de trabalho.

“Estamos transformando lixo em instrumento de trabalho, de dignidade e de inclusão”, conta Carlos Almeida, presidente da cooperativa, que também é cego desde os 12 anos. “O PET é um material barato, abundante e muito fácil de trabalhar. Com um pouco de técnica e muita dedicação, podemos fazer uma vassoura tão boa quanto as convencionais, mas com a vantagem de ser 100% reciclável e mais leve.”

Do descarte à utilidade

O processo é simples e eficiente. As garrafas são cuidadosamente higienizadas, cortadas em tiras finas, e as fibras são trançadas à mão até formarem uma base resistente para a vassoura. Um cabo de madeira (também reaproveitado de materiais descartados) é encaixado na parte inferior, resultando em um produto final que suporta tanto detritos secos quanto úmidos, sem desmoronar.

“O segredo é o trançado”, explica Luiza Ferreira, uma das artesãs da cooperativa. “Os olhos nos ajudam a sentir a espessura e a textura das fibras, o que nos permite fazer um trabalho mais preciso e confortável.”

Impacto na limpeza urbana

Os primeiros lotes de vassouras foram entregues aos garis da regional de Jardim da Penha, que estão testando a novidade em suas rotas diárias. “As vassouras são muito leves, o que facilita o trabalho. Além disso, são mais ecológicas, então colaboram com o meio ambiente”, comenta Marcos Ribeiro, supervisor de limpeza.

A adoção do novo material também deve reduzir os custos com produtos de limpeza, já que as vassouras podem ser utilizadas com menos frequência para tarefas que antes exigiam equipamentos mais robustos. “Se um material reciclado pode cumprir a mesma função, é um ganho para todos — tanto para a cidade quanto para os profissionais”, afirma a Secretaria Municipal de Limpeza Urbana, que apoia a iniciativa.

Geração de renda e inclusão

A cooperativa já conta com 15 cooperados, todos com algum grau de deficiência visual. Cada vassoura produzida é vendida por um preço simbólico a entidades públicas, e o lucro é revertido para a cooperativa e para a melhoria de condições de trabalho dos membros.

“Para muitas pessoas, o acesso ao mercado de trabalho é um desafio adicional. Aqui, temos a oportunidade de mostrar que somos capazes, produtivos e criativos”, afirma Paulo Gomes, outro membro da cooperativa. “Além disso, estamos ajudando a manter nossa cidade mais limpa, um pouco mais verde.”

Olhar para o futuro

O sucesso da “Vassouras Solidárias” já chamou a atenção de outros municípios capixabas, que manifestaram interesse em conhecer o modelo. Os cooperados planejam expandir a produção, investindo em ferramentas adaptadas (como um tipo de serra elétrica com controle por voz) e em cursos de capacitação profissional.

A ideia é transformar a cooperativa em um polo de economia circular, onde o ciclo de reaproveitamento se fecha: garrafas descartadas se tornam vassouras, que, após o desgaste natural, podem ser transformadas novamente em novas garrafas, fechando o circuito.

“Nosso objetivo é mostrar que a inclusão não é apenas um conceito — ela pode ser palpável, útil e sustentável”, conclui Carlos Almeida. “Com o apoio da comunidade e das autoridades, podemos ampliar esse projeto e impactar ainda mais vidas.”

A “Vassouras Solidárias” é um exemplo concreto de como a criatividade, aliada à responsabilidade social e ambiental, pode transformar desafios em oportunidades, tornando as cidades melhores para todos — inclusive para aqueles que veem além do óbvio.

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