Hospital de Tabatinga: cozinha para por 4 meses de salários atrasados

Hospital de Tabatinga tem cozinha sem salários há quatro meses: “Não temos mais pão na mesa”
Tabatinga, Amazonas – 03/Nov/2025


1. Panorama da crises

A Cozinha Central do Hospital General de Tabatinga, referência no atendimento de mais de 300 pacientes daily, vive um dos capítulos mais difíceis de sua história reciente. Desde o início de setembro de 2025, os profissionais que comandam a produção de refeições para pacientes, visitantes e equipe estão sem receber salários, com os pagamentos atrasados por quatro meses consecutivos.

A situação chegar a ponto de colocar em risco a continuidade das refeições e, consequentemente, a saúde dos internos. Enquanto o Conselho de Administração afirma que o atrasado “é apenas uma questão de caixa temporária”, os funcionários descrevem “um clima de desespero” que já provocou a saída voluntária de mais de 30% da equipe nos últimos 30 dias.


2. Quem são os envolvidos?

Grupo Cargo Principais reivindicações
Gestores Administrativos Diretor Interino – Dr. Paulo Mendes Explicar a origem dos atrasos e apresentar plano de quitação até o final do próximo trimestre.
Sindicato dos Trabalhadores da Saúde (SINTSS) Presidente – Maria Lúcia Dias Garantir pagamento imediato dos salários devidos e estabelecer critérios de transparência nos repasses financeiros.
Equipe Operacional 48 cozinheiros, auxiliares e diaristas Retorno rápido dos valores atrasados, criação de um fundo de emergência para “contingências de folha”.
Pacientes e Família Representantes de ONGs de saúde Requerer manutenção do serviço de alimentação, sob risco de interrupção dos protocolos de nutrição dos pacientes.

3. Origem do problema

Segundo a assessoria administrativa do hospital, o atraso decorre de remanejamentos orçamentários provocados por atrasos nos repasses do Fundo Nacional de Sanità (FNS) e da Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (SES‑AM). Em setembro, esses órgãos ainda não concluíram os pagamentos referentes ao quinto trimestre de 2025, o que impediu que a cozinha cumprisse as obrigações salariais.

“Temos contas a pagar que foram bloqueadas por atrasos na liberação de recursos federais. O dinheiro chegaria em partes, mas acabou chegando atrasado e insuficiente para cobrir todo o passivo”, afirmou a diretora de finanças, Carla Santos, durante audiência pública no dia 15 de outubro.

Entretanto, a SINTSS contesta a versão oficial, apontando que “há indícios de má gestão interna” e que há “há registros de pagamentos que foram efetuados a fornecedores sem comprovação de entrega”.


4. Impacto imediato nas refeições

  • Redução de cardápio: De 12 pratos diários, a cozinha reduziu para apenas 5, todos de base simples — arroz, feijão, carne moída e sopas.
  • Qualidade nutricional: Segundo nutricionista da unidade, Dra. Helena Araújo, a dieta dos pacientes internos “deixou de ser balanceada”, colocando em risco o tratamento de doenças crônicas, sobretudo entre Idoso e pediátricos.
  • Atendimento de emergência: A administração recorreu a parcerias com ONGs para enviar alimentos prontos, mas a capacidade de suprir toda a unidade ainda é limitada.

“Se a cozinha parar totalmente, vamos precisar transferir pacientes para hospitais vizinhos, o que sobrecarregará outros serviços”, alertou o diretor clínico Luis Ferreira.


5. Reações do poder público

  • Secretaria de Estado de Saúde (SES‑AM): Em nota oficial, a secretaria afirmou estar “diligenciando medidas urgentes para viabilizar os pagamentos pendentes” e garantiu que “a prioridade será a manutenção da saúde dos pacientes”.
  • Prefeitura de Tabatinga: O prefeito Jorge Santos convocou uma reunião emergencial com representantes sindicais e de saúde na última sexta‑feira (30/out). O município, que complementa os repasses estaduais, propôs um adiantamento parcial de R$ 1,2 milhão para quitar parte dos salários, mas ainda aguarda a liberação de recursos federais.
  • Parlamento Amazonas: O deputado federal Rômulo Bittencourt apresentou projeto de lei que cria um Fundo de Contingência Salarial para Serviços de Saúde, visando evitar que situações como a da Cozinha Central se repitam.

6. Vozes da resistência

“Não podemos aceitar que a gente trabalhe para alimentar pacientes enquanto a nossa própria família passará fome. O governo está nos abandonando”, desabafa José Soares, auxiliar de cozinha, pai de três filhos.

Outros colegas relataram que, diante da falta de renda, optaram por trabalhos informais ou até rgidos de venda ambulante de comidas caseiras para sobreviver. A situação tem gerado tensões internas; alguns chegaram a romper contratos à força, enquanto outros permanecem na esperança de que o pagamento chegue “a qualquer momento”.


7. Possíveis caminhos para a solução

  1. Liberação imediata de recursos por parte do FNS e da SES‑AM, com o comprometimento de um cronograma de pagamento até 30 dias.
  2. Criação de um fundo emergencial municipal que possa ser acionado quando houver atraso superior a 30 dias nos repasses.
  3. Monitoramento independente dos contratos de suprimento de alimentos da cozinha, com auditoria trimestral para evitar desvios financeiros.
  4. Diálogo institucional entre governo estadual, municipal e sindicato, visando a formalização de um plano de contingência salarial que garanta pagamentos em dia, mesmo em períodos de pressão orçamentária.

8. Conclusão

O Hospital de Tabatinga, embora reconhecido por sua excelência em atendimento a regiões remotas da Amazônia, enfrenta hoje um desafio que vai além da questão administrativa: a sobrevivência de profissionais que, diariamente, asseguram a alimentação de quem mais precisa. Enquanto as partes envolvidas ainda buscam a solução de um impasse que já dura quatro meses, o medo de interromper as refeições – e, consequentemente, colocar em risco a vida dos pacientes – permanece latente.

A urgência não está apenas em resolver o atraso de salários, mas também em garantir que a continuidade dos serviços de cozinha seja preservada, sob pena de sacrifícios humanos que podem assumir contornos ainda mais graves.

Reportagem de Ana Luiza Carvalho – Redação Saúde & Direitos

Fonte

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